Quarta-feira, Junho 30, 2004

À Avenida Almeida Ribeiro


Não sei como se chama este homem. Sei apenas que vende tabaco ao meu Pai, há cerca de 20 anos. Para além dos "pregos" vende ainda bebidas, lenços de papel, isqueiros e pastilhas elásticas. Passa o dia a ler os jornais e a olhar em volta, observando o que se passa do outro lado da Avenida Almeida Ribeiro, no Largo do Senado, onde o movimento humano é intenso a todas as horas do dia.
Aqui há tempos o meu Pai apercebeu-se de que estaria a arrumar a sua banca mais cedo e comentou "então, já a arrumar, tão cedo?". Meio em gestos, meio em palavras, explicou-lhe que ia ver o jogo de futebol que dava nesse dia na televisão. Gosta da bola e vê os jogos de Portugal.
Quando o Futebol Clube do Porto ganhou a Taça dos Campeões, assim que viu o meu Pai estendeu 3 dedos, indicando o número de golos pelo qual o Porto havia ganho. Nestes últimos dias lá vai fazendo o seu comentário aos jogos da nossa selecção. Diz que joga bem. Para o jogo de hoje já fez prognósticos: Portugal vai ganhar por 2.

Estou livre!

Livre, livre, LIVRE!!!!!
Acabei há pouco o último exame do ano. Adeus livros, adeus resumos, adeus apontamentos, adeus celibato, adeus levantar cedo, adeus curto-circuito aos neurónios. Olá sorna, preguiça, passeio, piscina, filhos, férias, outros livros!!!!

(quer dizer: estou a partir do princípio de que não tenho oral... grande presunçosa! :P Pois é: pode não ser bem assim... depois se verá!)

Dúvida existencial da semana

Porque demoro eu cerca de uma hora a adormecer o meu filho e o Pai demora 10 minutos, se tanto?

Terça-feira, Junho 29, 2004

Manifes e convocatórias

Quando há questões sérias para discutir surge cada discussão mais estúpida! Que interessa se a manifestação de domingo foi espontânea ou não foi espontânea? As pessoas aderem às manifes pelo simples facto de terem sido convocadas para elas, ou porque concordam com elas e vão de livre vontade?

Segunda-feira, Junho 28, 2004

Antecipadas, sim!

Não concordo com a opinião de alguns que dizem que os eleitores escolhem os deputados e não o Primeiro Ministro. Os partidos, em campanha eleitoral, promovem o seu candidato a Primeiro Ministro, os eleitores votam tendo essa figura em conta e não os deputados, que pouca gente deve conhecer.
Pedro Santana Lopes não tem perfil para ser o nosso Primeiro Ministro, não reúne consenso nem dentro do seu próprio partido. Os portugueses que votaram no PSD não foi nele que votaram.
O país está a entrar numa fase de instabilidade como há muito não se encontrava.
Por tudo isto defendo ELEIÇÕES ANTECIPADAS, SIM!

Domingo, Junho 27, 2004

Antecipadas, já!


Retirado do Barnabé.

Sexta-feira, Junho 25, 2004

Futebol - linguagem universal

Vagueava com os meus dois filhos por uma ruela estreita de Macau, junto do mercado de S. Domingos, quando parei junto a uma tendinha, para perguntar o preço de um artigo. Apesar de serem mesmo muito estreitas e estarem sempre cheias de gente, os motociclistas acham que devem fazer delas o seu percurso, buzinando sempre que precisam que alguém saia da frente. Ontem não foi assim. O meu filho, que envergava o equipamento da selecção, estava mesmo no meio da rua, de costas, quando uma mota se aproximou. Parou atrás dele e o seu condutor, em vez de buzinar, chamou: "Figó...Figó...", para que saísse da frente.

Boa, Portugal!

Terça-feira, Junho 22, 2004

Barcos-Dragão


Macau esteve hoje em festa. A festa do Barco Dragão (Tung Ng). Esta festa, de origem chinesa e muito antiga, celebra-se em homenagem à integridade moral do juíz Wat Yuen. Curiosamente, a informação mais completa que encontrei sobre a lenda que lhe deu origem foi aqui.
Estas celebrações, hoje em dia, resumem-se às famosas regatas de Barcos Dragão, que decorreram hoje. Os Lagos de Nam Van vestiram-se de várias cores para receber as equipas participantes. Os Barcos Dragão são embarcações compridas, como podem ver na foto, onde seguem 22 pessoas: um ao leme, 20 remadores e um ao tambor. À cadência do tambor, os remadores vão cortando águas com os seus remos, até concluirem o percurso que é de 500 metros, num enorme esforço físico.

Ai estes meninos, com as Mães...

Estava o meu filho a ser adormecido pelo Pai, quando o oiço chamar-me. Fui ao quarto dele e perguntei:
- Diz lá?
- Posso ir dormir para a tua cama?
- Então, porque não perguntaste ao Pai?
- Porque tu és mais querida!

Então, menino? Essas coisas não se dizem... à frente do Pai! ;)

P.S. - Para que se entenda melhor: o meu filho tem demonstrado estar em pleno complexo de édipo (fase que a irmã também passou, mas inversa). O Pai passou para 2º plano e acha que a mãe é o máximo! (meu filho, como estás enganado! ;))

A euforia nacional

Hoje não estive com Portugal nem com a selecção. A festança portuguesa passou-me literalmente ao lado. Não por falta de patriotismo, porque acho que patriotismo não é apenas isso. Não sei se por estar longe da festança e por nem sequer ter visto o jogo, que aqui deu a desoras. Só sei que assim que soube que Portugal tinha ganho, assim que acordei de manhã, não tive qualquer reacção em especial.
Tenho estado a pensar se não é por achar que estes fenómenos de euforia colectiva que se levantam à volta destas coisas são uma grande fantochada.
Como seria se os rapazes tivessem tido um desaire e dado a vitória à Espanha? Toda aquela gente continuaria a gritar vivas à nossa selecção? Provavelmente, alguns fariam uma espera aos jogadores, insulá-los-iam, assobiariam, outros esconderiam os cachecóis e as bandeiras penduradas nas janelas voltariam para as arcas, com ou sem naftalina. Ouvir-se-iam comentários como "não jogam nada" , ou "o seleccionador não presta, devia ser português" e outros que tais. Nos jornais, em grandes parangonas, escrever-se-ia "derrota vergonhosa", ou "selecção mediana" ou outros semelhantes, como aconteceu hoje em Espanha, onde em imagens na televisão vi atirarem um poster gigante de Raoul ao chão. Muito provavelmente, a euforia nacional ficaria arrumada de vez naquele baú lá no sótão, até que alguém com poder fizesse nova lavagem ao cérebro dos portugueses perante nova disputa.
Será por isto que hoje não me sinto "Portugal"?

Segunda-feira, Junho 21, 2004

Más-criações

7 da tarde, dia de anos do pai, jantar para fazer, trânsito, 3 miúdas no carro, uma delas para ir levar à Taipa. Paro à porta do supermercado, em 2ª fila (ok, eu sei que não devia) para ir comprar já não sei o quê. As miúdas ficam no carro (já são crescidinhas).
Quando passo, no passeio, pelo carro ao lado do qual parei o meu, vejo uma senhora a abri-lo. Pergunto uma vez “a senhora vai sair?”. Não responde. Pergunto segunda vez “a senhora vai sair?”. Não responde. Concluo que não está interessada na conversa e vou ao supermercado em 2 minutos. Enquanto pago, os meus ouvidos distinguem um sonoro apito (está melhor assim, Alexandre?). Penso “isto deve ser comigo”. Pago à pressa, pego no saco e desando dali. Era mesmo comigo. Passo pelo carro ao qual estava a impedir a saída e digo à senhora (a mesma) “a senhora desculpe, mas eu quando passei perguntei-lhe se ia sair, como não respondeu, fui-me embora”. “Diga?”, pergunta com um ar aparvalhado. Repito: “a senhora desculpe, mas eu quando passei perguntei-lhe se ia sair, como não respondeu, fui-me embora”. Resposta bem educada: “eu não ouvi e senhora está a ser malcriada”.
Ah estou? Bom, o que vale é que estou com pressa, senão punha as mãos na cintura, puxava da costela peixeira que ainda tenho, da parte da minha amiga da Nazaré, e ias ver o que é ser malcriada! Não há pachorra!!!

Domingo, Junho 20, 2004

Buzinomania

Descobri a minha mais recente maleita – buzinomania! Percebi que ultimamente conduzo permanentemente com uma mão no volante e outra na buzina. Será que é crónico? Haverá cura? A cura deve passar concerteza pelo fim do rol de disparates que vejo todos os dias à minha volta, senão vejamos:
- ter constantemente motociclos à minha frente ou ao meu lado e a trespassarem a minha faixa de rodagem sem olhar nem pedir licença;
- ter constantemente veículos a passarem-se para a minha faixa de rodagem sem fazerem pisca;
- ter permanentemente carros parados na faixa de rodagem onde é suposto circular;
- haver peões que nas passadeiras se deixam ficar no passeio à espera que os carros parem e que fora delas atravessam “à la gardère”;
- conduzir diariamente pela minha rua e vir-me um engraçadinho em sentido contrário, com metade do carro na minha faixa de rodagem;
- querer sair do estacionamento e não conseguir porque tenho uma mota à frente e outra atrás.
E outras haverá!
Mas há alguém que aguente tudo isto diariamente sem ficar buzinomaníaco? Irra!

Sábado, Junho 19, 2004

Saída da minha filha

- Ó mãe, tu és tão querida, tens tanta paciência para nós!
E digo eu, de mim para mim: então, não houvera de ter?!

Sexta-feira, Junho 18, 2004

Os anjos não se abraçam

De há uns tempos para cá, o meu filho demonstra preocupação acerca da morte. Diz "eu não quero morrer", pergunta se A ou B estão quase a morrer porque já são muito velhos, se só se morre aos 100 anos, quem vai morrer primeiro, etc. Questões às quais tenho tido alguma dificuldade em responder, mas às quais vou respondendo da forma que considero ser adequada à sua idade.
Ontem, entre lágrimas, dizia:
- Mãe, quando vocês morrerem eu e a mana vamos chorar muito.
- Ó filho, pois é, mas não penses nisso agora, está bem? O pai e a mãe estão aqui, ao pé de vocês.
- Quando vocês morrerem, nós nunca mais vamos ver-vos e vamos ficar sozinhos, eu e a mana?
- Filho, quando eu e o pai morrermos, vamos ser uns anjinhos e vamos estar sempre a tomar conta de ti e da mana.
- Mas nós vamos chorar muito
- e chora - porque, quando vocês forem anjos, nós não vamos poder abraçar-vos.
- Ó filho, vem cá abraçar a mãe.

Tentei compensá-lo com abraços antecipados. Mas deixou-me sem palavras.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

A roleta

Haverá provavelmente poucos locais com as características daquele em que vivo. Só quem passa por locais como este pode compreender do que falo hoje.
Bem diz o caracter do qual falei há uns posts atrás que Macau é uma porta. É porta permanente de entrada e de saída. Esta terra é uma passagem. É local de transições permanentes. Uns vêm outros vão, num rodopiar constante, como a roleta do casino que cada vez mais é símbolo desta terra, destronando as velhinhas ruínas de S. Paulo.
Em 13 anos de permanência neste canto, também ela feita de vindas e idas, conheci muita gente. Gente que me interessou, outra que nem tanto, gente que ficou para sempre guardada em mim, outra que não guardei nem por um momento. Outra (se calhar a maior parte dela), que guardei por momentos e depois rejeitei, como um livro mau, que se lê e se deita fora quando se percebe que não presta. Há ainda aquelas pessoas que passam pela nossa vida, mas por pouco tempo, não fora esta terra um local de passagem. Essas preenchem-nos durante parte na nossa vida e depois evaporam-se. Deixam saudades. Mesmo que continuemos a alimentar o que nos une, falta o contexto. A distância separa as vidas, que tomam rumos diferentes e a união jamais será a mesma.
Por tudo isto, ver partir pessoas que se percebe que são diferentes é duro. Demasiado duro para quem se sente só, no meio de tanta gente. É sentir que mais uma vez se perde alguém que se guardaria no coração, não fora esta terra uma terra de passagem.

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Riquexó

Há uns tempos escrevi aqui um conto que se intitulava "O homem do riquexó". Mas sabereis todos vós o que é um riquexó?

Um riquexó é este triciclo que podem ver na foto. É movido a pedais e serve para o transporte de pessoas. Antigamente era meio de transporte comum e era puxado por uma pessoa a pé (em Hong Kong ainda existem modelos destes, mas apenas para o turista tirar fotografias). Hoje em dia serve apenas para o transporte de turistas. Nunca me meti num, porque acho desumano submeter aqueles homens ao esforço de palmilharem parte da cidade a pedalar, debaixo do calor intenso que se faz sentir. Mas é o seu trabalho...

Domingo, Junho 13, 2004

Meu filho

Faz hoje 6 anos que, contrariando as previsões, quiseste vir ao mundo. Alguém, cujo nome nunca soube, separou o cordão que nos unia. Tu nasceste, pequenino. Mas rapidamente compensaste o tempo que deverias ter ficado no aconchego do meu ventre, através do leite que sorvias do meu peito. Muito embora já não existisse cordão a unir-nos, a sensação que tinha, durante aqueles primeiros tempos, era que eras só meu. Só eu podia alimentar-te, era eu quem entendia melhor todos os teus sinais, estávamos em sintonia perfeita. A pouco e pouco foste-te autonomizando de mim. Foste crescendo, desenvolvendo. Começaste a sorrir, a voltar-te, a sentar-te, a gatinhar, a andar, a fazer das tuas. Hoje és um belo menino, tão frágil como forte, tão teimoso como obediente, tão grande como pequeno. Já não existe cordão, mas continua a existir um elo maior que se cordão houvesse.
Hoje fazes 6 anos. Começas uma nova etapa na tua vida, embora nem te apercebas. Este dia para ti resume-se aos presentes, às velas a apagar e à festa de arromba que decidimos fazer cá em casa. Os teus 16 amiguinhos vão cá estar. Festejaremos, cantaremos, far-te-emos sentir um Rei.
Muitos Parabéns, meu filho!

Sexta-feira, Junho 11, 2004

Uma infância diferente

Ao contrário do que acontece na República Popular da China, o ensino em Hong Kong e Macau é muito exigente e concorrencial. Não é por acaso que a taxa de suicídios entre jovens em Honk Kong é assustadora. Os colégios são caríssimos e o ensino muito exigente. Se um aluno chumba ou é expulso de um colégio por mau comportamento, dificilmente é admitido noutro.
Mas esta exigência começa mais cedo do que possamos imaginar. Ainda no Jardim de Infância, as crianças arcam com uma responsabilidade superior às suas capacidades. Tudo começa com as provas que têm que prestar para admissão (estamos a falar de crianças com 3 anos). Depois de admitidas, não têm um dia-a-dia igual ao que nos habituámos a ver nos nossos Jardins de Infância. Têm um horário completo, apenas lhes sobrando tempo para brincar nos intervalos das lições que têm: matemática, inglês, chinês (escrito), música. As salas têm poucos brinquedos e os que existem estão muito arrumadinhos nas prateleiras, muitos deles fora do seu alcance. Têm trabalhos de casa e provas de avaliação periódicas. Cada criança transporta diariamente consigo uma caderneta que todos os dias recebe carimbos (“bons” ou “maus”), conforme: se chegou a horas ou atrasada (como se aos 3/5 anos a culpa fosse sua e não de quem vai levar), se comeu bem ou mal, se se comportou segundo os parâmetros ou não, se fez ou não os trabalhos de casa, etc. As crianças são ordeiras, bem comportadas, estão em silêncio. No recreio são como as nossas: riem, correm, brincam.
Pouco espaço é deixado à criatividade: fazem o que lhes é mandado fazer. Reparei, por exemplo, que todos os desenhos expostos são iguais: desenhos já feitos, dados à criança para que pinte dentro do risco e com as cores indicadas. Não vi desenho livre, não vi pintura, não vi experiências nem materiais para além dos lápis e das canetas. Esta é a fase em que a criança tem uma imaginação valiosa, uma criatividade soberba, uma vontade de explorar o mundo como nunca mais terá. É a fase em que devem ser valorizadas, aproveitadas e desenvolvidas. Em que deve ser promovida a sua auto-confiança, a sua auto-estima. Onde fica tudo isso? Adiado? Será que mais tarde isso ainda é possível?
Não sei se terá alguma coisa a ver, mas noto, por exemplo, que surgiu agora uma grande vaga de jovens que se vestem de uma forma indescritível (misturam o roxo com o amarelo, o verde e o cor de rosa, vestem calções à "Alladin", peúgas até ao joelho ou collants, combinam bolas com quadrados...) e cujo cabelo tem exactamente o mesmo corte. A moda, embora para mim estranhíssima, pouco importa. O que impressiona é que andam todos de igual. Será que todos se identificam com aquele padrão, ou que não conseguem ter imaginação, para além daquilo que vêem ao colega do lado?
As consequências da infância adiada são visíveis uns anos mais tarde quando, já adultos, enchem os seus carros de peluches, adoram a Hello Kitty e procuram tudo o que tenha bonecos, desde a simples caneta até à roupa que vestem.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Antigamente esta data era comemorada em Macau, através de um vasto programa, que durava até ao fim do mês de Junho. O Governador de Macau condecorava figuras locais, à semelhança do que faz em Portugal o Presidente da República. As crianças das Escolas (portuguesas e chinesas) faziam uma romagem à gruta de Camões, gruta onde, diz-se, Camões se abrigou e escreveu parte de “Os Lusíadas”. Ali lhe prestavam uma grande homenagem, recitando poemas de Camões, em português e em chinês e deixando flores junto do seu busto. Havia várias exposições de artistas portugueses, actuações de cantores da “Metrópole” e outros eventos, que acabavam por se misturar com os arraiais dos Santos Populares e marcavam assumidamente a presença portuguesa no território.
Muito me divertia nesses tempos. Vi muitos concertos: Amália, Carlos do Carmo, Madredeus, Trovante, Ala dos Namorados, Bonga e outros. Os arraiais eram sempre uma diversão. O caldo verde e o pão com chouriço, as sardinhas e os manjericos. Cheirava a Portugal.
Com o passar do tempo, após a passagem do exercício da soberania de Macau para República Popular da China, como seria natural e previsível, as comemorações foram esmorecendo. Hoje em dia estão reduzidas a um sarau musical pelos alunos da Escola Portuguesa de Macau, uma missa, uma recepção na residência do cônsul e pouco mais. Pelo menos, os estudantes portugueses ainda evocam o poeta, fazendo a habitual romagem até à sua gruta.

Eu

Hoje vou falar de mim. Há muitas coisas sobre mim mesma que ponho constantemente em causa. Não sou uma pessoa muito estável. Tanto rio como choro, tanto estou mal como estou bem, tanto amo como odeio. Mas sou fiel. Às pessoas, aos livros, aos discos, às roupas. Quando gosto, gosto mesmo. Ao longo dos anos a minha maneira de ser foi-se construindo assim. Não sei por influência de quem; ou se calhar até sei.
Até sou uma pessoa pacata, mas quando me enervo, enervo-me a sério, por dentro e por fora. Quando estou mal ou aborrecida com alguém ou alguma coisa, não disfarço. Não consigo manter uma fachada contrária ao que vai cá por dentro. Causo um turbilhão à minha volta e levo pelos ares todas as causas (e causadores) do meu mau-estar. Falo, grito, reclamo, disparato. Não deixo passar em branco. Não escondo. É a minha maneira de ser. Sei que nem sempre sou justa. Que por vezes sou mais bruta do que devia. Mas pelo menos não escondo os meus sentimentos, não escondo o que me faz ficar assim. Pelo menos não engano ninguém com falinhas mansas nem com falsas causas. Não é fácil, porque nem sempre as pessoas compreendem o que sinto, o que digo. As pessoas em geral dizem que gostam muito de autenticidade, mas quando os outros são verdadeiros e dizem o que pensam não gostam, ofendem-se, não compreendem. Mas não consigo ser de outra maneira. Nem mesmo quando não é “politicamente correcto”.
Se por vezes vos magoo, desculpem qualquer coisinha... mas tomem isso como a minha autenticidade. É melhor do que andarmos para aqui a fingir que está tudo bem. Provavelmente seria mais fácil ser diferente: manter a fachada, fingir, passar por cima. Mas não tenho vocação para palhaço e teatro só mesmo em cena. Esta é a vida real. É a minha vida. Gostem ou não gostem, eu sou e vou continuar a ser assim.

Terça-feira, Junho 08, 2004

A pedido da Guida, aqui vai o que consegui apurar:

Os caracteres que compõem "Au Men", que é como se diz "Macau" em Mandarim, são os que podem ver no título deste post (espero que se veja).
À esquerda do primeiro podem ver três traços (dois em cima e um mais comprido, em baixo), que significam "água". Ainda no primeiro caracter, dentro do quadrado está "arroz". Arroz + água = fortuna. O segundo caracter significa porta. Ou seja, Macau é a porta da fortuna.
E é-o... para muitos!

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Quem tem boca...

Cerca de 500 anos de presença portuguesa em Macau não foram suficientes para pôr os naturais a falar português. São raros os chineses que falam um português corrente, curiosamente são mais agora que anteriormente a 1999. São muito poucos os que sabem meia dúzia de palavras. Por cá nos vamos desenrascando, com umas palavras de chinês e mais uns gestos. Mas de vez em quando, temos surpresas...

Um destes dias, já tarde, o meu pai decidiu deixar o seu carro onde estava, partindo do princípio que, àquela hora, não iria ter estacionamento perto de casa. Como táxis é coisa que não falta nestas ruas e todas as distâncias são curtas, decidiu apanhar um. Ao entrar no táxi e como é coisa que raramente faz, deu conta que não sabia dizer a sua morada em chinês. Antes que "atirasse" com o nome do monumento mais próximo em português e adivinhando que não iria adiantar, o seu cicerone ia-lhe propondo os casinos da cidade:
- Lisboa?
- Não, Lisboa não!
- New Century?
- Não, não!
- Mandarim?
- Não, não quero casinos; mas que porra, agora como é que eu vou para casa?
- Falar português?
– pergunta-lhe o homem!
O meu pai não pôde evitar uma sonora gargalhada! Lá disse “São Paulo” e passado um pouco estava em casa.

Sexta-feira, Junho 04, 2004

A noite pictográfica

Esta noite, o pouco que consegui dormir, sonhei com caracteres chineses! Passei a noite a voltar-me de um lado para o outro e a pensar no "Pu tong hua" e no "Guang dong hua" e no "Pu tao ia". Continuo a misturá-los, que hei-de fazer??? A minha amiga Lília bem que me vai fazendo associar os caracteres a ideias (é a base desta escrita), mas as minhas ideias trocam-se todas quando os escrevo. E passei a noite nisto! Mas será que o meu subconsciente não tem dó de mim? Sim, tenho exame no sábado e sim, ainda não sei escrever (mas sei ler, o que é perfeitamente estúpido) metade dos que devia. Mas, ó subconsciente, tem dó!!!
Será porque a minha amiga Lília me esteve ontem a massacrar até à meia-noite? Aquela miúda tem métodos verdadeiramente repressivos nestas coisas, eu ontem senti-me uma criança no mais dos exigentes colégios chineses!!! Mas ao menos fiquei a saber aqueles ;)
Esta noite deve ser outra que vou passar a pensar em caracteres. Com tanto exame com carradas de matéria como tive, será possível que seja este a dar-me mais dores de cabeça???

Quinta-feira, Junho 03, 2004

As crianças (nem sempre) são uns amores.

Se não gostasse de crianças não tinha duas. Os meus filhos são um verdadeiro teste à resistência de qualquer adulto. As birras, o mau comportamento e a insolência são muitas vezes desesperantes.
É curioso, que eles são muito diferentes: ela é irrequieta (irrequieta é pouco, que tal "eléctrica"?), curiosa, mexerica (mexe em tudo o que deve, o que não deve e o que sabe que não pode), impaciente e (de há uns tempos para cá) insolente. Ele é mais calmo, mais pacato, também mais teimoso, bruto e birrento. Ambos são meigos e amiguinhos, mas nenhum deles está próximo da perfeição da boa educação.
O que conheço de educação não é suficiente para os educar? Bom, não há receitas para isto, que nos digam “se acontecer isto, fazes aquilo” e fica resolvido. Era bom! Ou se calhar nem era tanto... Educar é uma tarefa complexa, cheia de mistérios e que dá muita luta. Por mim, uso o meu bom senso (é claro que o que sei de educação está no meu subconsciente, a dar uma ajudinha);).
Às vezes creio que consigo fazê-lo, outras vezes que não. Encaro estas coisas de duas maneiras diferentes (depende do meu estado de espírito):

1 – Os meus filhos são uns valentes mal-educados e eu sou um falhanço como mãe.
Quando penso assim sinto-me frustrada, mas por vezes quando acho que não tenho controle sobre as situações é o que chego a pensar. São malcriados, insolentes, teimosos, fazem birras... há pior? Não há paciência para birras de meninos malcriados e a minha por vezes esgota-se e lá vai um grito para o ar ou uma palmada onde calhar.

2 – Os meus filhos são crianças, estão a crescer e o que é importante não é o que fazem no dia-a-dia, mas as mensagens que lhes vou fazendo passar.
Quando estou mais lúcida (acho) é o que penso. Quando este faz uma birra ou o outro faz qualquer coisa que não devia, será que isso de facto tem importância? Ou será que o que tem de facto importância é o que pode ser aproveitado a partir do que eles fizeram? As conversas, os conselhos, a confiança que pode ser conquistada e mantida. Será que tudo isso não vai ser mais importante, num futuro menos próximo? Creio que sim. Por isso tento cada vez mais desvalorizar as birras e as asneiras (com as insolências e as teimosias já é diferente). Tento sim, ser cada vez mais paciente e contornar as questões de modo a que as mensagens que vou passando sejam superiores, sejam mensagens para toda a vida. Responsabilidade, justiça, igualdade, respeito pelo próximo, solidariedade, entreajuda, compreensão, confiança, amizade e outras mais que vou passando e que agora não me ocorrem.
Creio que é mais importante preocupar-me que adquiram estes valores do que se roem o lápis ou a caneta, se entornaram o copo, se sujaram a roupa, o sofá ou a parede ou se romperam os sapatos.

Apesar de todas as birras e insolências, quando a minha filha chega a casa a dizer que se insurgiu contra toda a sua turma para defender a turma do lado numa questão de justiça, orgulho-me dela, penso que é educada e que tudo o resto irá lá, ad tempus (podia era ser um bocadinho mais autocrítica...)

As crianças nem sempre são uns amores
Pois não, não são. Às vezes também me apetece deitá-las pela janela! Mas nós, pais, temos a obrigação de sermos pacientes. Com os anos fui aprendendo a controlar a minha paciência. Acreditem: treina-se. A paciência também se ensina e se nós formos pouco pacientes com eles, eles vão ser adultos pouco pacientes e o mundo será um verdadeiro caos de pessoas intratáveis.

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Parabéns a mim!

Hoje faço anos. Eu gosto de fazer anos... se calhar é nestes dias que revelo a criança que há dentro de mim! As atenções que tenho, os telefonemas, a caixa de e-mail cheia, as prendas, os mimos são para mim um gozo enorme.
Tenho pena de estar para aqui tão longe e não poder reunir todos os meus familiares e amigos, mas também é certo que, se estivesse em Portugal, se calhar nem pensava nisso e não os reuniria... Por isso, familiares e amigos: aproveito este dia para dizer que gosto muito de todos vós (o que nem era preciso, porque vocês sabem-no) e que me fazem muita falta num dia como este.
(Estejam à vontade para me deixar os parabéns na caixa de comentários!) ;)

Terça-feira, Junho 01, 2004

Feliz dia da criança!

Ontem perguntei à minha filha “não te importas que a prenda do dia da criança seja apenas um chocolate? É que a mãe anda tão atrapalhada com os exames, que nem teve tempo de pensar nisso”. “Não!”, respondeu ela com ar compreensivo. Fomos ao supermercado, comprei um chocolate a cada um e ainda um pacote com chocolates mini para levarem aos colegas.
Quando acordou, esta manhã, passou pela sala, mas nem as viu. Disse-lhe “vai à sala”. Foi. Gostava de ter fotografado a sua boca aberta e o seu ar de espanto, quando viu duas bicicletas. “Obrigada, mãe, nunca pensei!”
O mais pequeno fez uma birra. Não estava à espera de uma bicicleta, queria apenas um carrinho. Durou 2 minutos, depois disso montou nela para se fazer transportar pelas várias divisões da casa, para se arranjar. Levou-a para a escola.

Quem me dera que hoje e sempre todas as crianças do mundo fossem felizes!